A paixão pelo afrobeat foi o elo entre os 13 músicos que se uniram para criar a Abayomy, inicialmente uma orquestra de tributo ao nigeriano Fela Kuti. Alguns dos músicos já se conheciam, outros se conheceram nos ensaios realizados no Cosme Velho, no Rio de Janeiro. O que nenhum deles podia prever naquela época é que o show no primeiro Fela Day realizado no Brasil, em 2009, seria um sucesso e despertaria em todos uma vontade irresistível de levar o projeto a outro patamar.

Foi só então que o percussionista Alexandre Garnizé sugeriu o nome Abayomy, uma celebração às raízes africanas e à convergência de energias e objetivos de seus integrantes: seu significado em Iorubá é “encontro feliz”. A formação original permanece praticamente a mesma até hoje, com a saída de apenas dois músicos.

Com a decisão tomada e a banda batizada, o caminho natural foi buscar identidade própria, deixando que outras referências emergissem sem amarras, porém preservando a essência estética que os uniu. Algo como um afrobeat brasileiro. Assim, o primeiro álbum lançado, Abayomy (2012), é um disco de afrobeat com acento próprio, na produção de André Abujamra.

Com forte veia instrumental, as seis faixas revelam um extenso trabalho de pesquisa sobre etnias, línguas e religiões africanas, e também sobre a música brasileira e tradições regionais.

O primeiro sucesso do grupo, Malunguinho, é um culto da Jurema bastante popular sobre um Exu da floresta. A partir dele os músicos desenvolveram o groove, um afrobeat em sua essência, porém com quatro acordes. No álbum estão também outros cantos tradicionais, como Obatalá e Afrodisíaco. Há ainda uma surpresa: uma composição em inglês (No Shit).

Abayomy já sinalizava que o grupo tinha muito mais a explorar, caminho que se concretizou em Abra Sua Cabeça, de 2016. Com oito faixas, o álbum traz a energia, o ritmo e a crítica às desigualdades raciais e sociais típicas do afrobeat, agregado a sonoridades brasileiras, funk, rock e influências de outros países africanos. Guitarras, percussão e teclado assumem novas funções. Desta vez, a maior parte das letras é em português.

Afloram as influências de Gilberto Gil e do clássico Refavela (1977), que traz uma experimentação com a música africana moderna, e também de Carlos Dafé, Cassiano, Tim Maia, do baterista e percussionista Robertinho Silva e do baixista Rubão Salina, entre outros. A partir deste ponto, a Abayomy Afrobeat Orquestra passou a se chamar apenas Abayomy.

Em seu processo coletivo de criação, Abra Sua Cabeça contou com colaborações de peso: o baterista nigeriano Tony Allen e o guitarrista Oghene Kologbo, parceiros de Fela Kuti; os músicos Otto e Céu; o produtor e baterista Pupillo e o vocalista Jorge Du Peixe, ambos da Nação Zumbi. Um encontro que só poderia ser feliz.

Movimento brasileiro com características em comum com a música de Fela Kuti e que influenciou a maior parte dos integrantes da banda, o manguebeat marca posição em “Mundo Sem Memória”, na voz de Otto, e em “Vou Pra Onde Vou”, com Jorge Du Peixe nos vocais e Pupillo na bateria. Já “Sensitiva” tem a suavidade de Céu fazendo uma pausa romântica e pop no ritmo frenético do álbum. A leveza permanece na levada de jazz de “Tony Relax”, uma parceria com Tony Allen na bateria. De passagem pelo Brasil, o nigeriano gravou a base, e a Abayomy compôs o tema posteriormente. A letra curta em francês provoca uma reflexão sobre a vida e a morte.

A postura crítica do afrobeat está presente nas letras de “Com Quem”, sobre corrupção e impunidade; “Peleja” e Mundo Sem Memória”, que tratam de racismo. O posicionamento não surge como uma obrigação, segundo o vocalista e guitarrista Gustavo Benjão: ele vem naturalmente, característica que marca todo o processo de evolução da orquestra. Talvez por isso tudo flua tão bem.

Estão também no álbum a referência ao sincretismo religioso brasileiro, às religiões africanas e aos Orixás, inclusive com letra em Iorubá na faixa “Omolu”.

Em 2018 a Abayomy se debruça sobre a criação do terceiro álbum, com previsão de lançamento para o segundo semestre e um mergulho mais profundo nas sonoridades brasileiras.

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